Conservação do lobo-guará beneficia produtores rurais

Conservação do lobo-guará beneficia produtores rurais

Em alta na visibilidade pública por estampar a nova nota de R$ 200, o lobo-guará precisa ser reconhecido também pelos benefícios que pode trazer para o setor produtivo rural. Esse é um valor ainda pouco contabilizado, conforme os especialistas avaliam. Tanto que é um animal que está na categoria vulnerável em relação à elevada ameaça

Em alta na visibilidade pública por estampar a nova nota de R$ 200, o lobo-guará precisa ser reconhecido também pelos benefícios que pode trazer para o setor produtivo rural. Esse é um valor ainda pouco contabilizado, conforme os especialistas avaliam. Tanto que é um animal que está na categoria vulnerável em relação à elevada ameaça de extinção. Isso ocorre principalmente pela perda do habitat, com a ampliação das áreas urbanas e também das plantações.

Estudiosos argumentam que não pode haver dois lados nas discussões sobre conservação da natureza: um embate entre meio ambiente e economia. Projetos colocados em prática com o lobo-guará mostram que é possível a convivência adequada entre preservação e agroindústria. Conscientização e ações equilibradas fazem bem para as plantações, para o animal a para os negócios. “O que a gente precisa e está buscando nos projetos é construir as pontes entre os diversos interesses, o econômico e o de conservação. É necessário mostrar para os setores de produção que não existem dois lados. Existe um lado só. Se eles trabalharem de forma sustentável na produção, eles vão ganhar e a fauna também”, explica o biólogo Rogério Cunha de Paula. Ele pesquisa o lobo-guará há quase 25 anos e, por isso, um dos maiores conhecedores do animal na América Latina. Cunha atua como analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), no Centro Nacional de Pesquisas para Conservação dos Predadores Naturais (Cenap).

Para ele, o desafio presente é fazer com que o setor econômico entenda a necessidade e seja parceiro. Um fato é que a velocidade da degradação do habitat é bem mais rápida do que a de recomposição da espécie. “Com o tempo, ele vai desaparecer de vários lugares. Quando a gente fala da descaracterização do Cerrado, ambiente principal do animal, temos que é uma realidade muito preocupante. Mas não adianta falar apenas que o animal é importante e por isso não é possível converter áreas do bioma em plantações, sendo que sabemos que o forte do nosso PIB [Produto Interno Bruto] é a exportação de produtos agrícolas”.

 

Espécie pode ser aliada dos agricultores e fomentar o turismo rural

Entre os projetos de conservação, está o Lobos da Canastra, que existe desde 2004, no Parque Nacional da Serra na Canastra, em Minas Gerais. Segundo Rogério Cunha, trata-se do espaço de Cerrado com a maior concentração de animais na América Latina (aproximadamente 200). Ele explica que o local é apropriado para a conservação em vista das características nativas do lugar e por ser ocupada por pequenos produtores rurais, em diferentes atividades. “Quanto mais diversificado, melhor para o animal”, destaca.

O projeto cuida de informar a comunidade e também motivar a discussão dos problemas e busca por soluções. “Na Serra da Canastra, uma das maiores ameaças ao lobo era a caça. Isso porque os animais comiam as aves dos produtores e isso levava a serem caçados. A gente conseguiu acabar com essa prática mostrando para as pessoas que as galinhas poderiam ser presas no galinheiro. Mostramos para as pessoas que os lobos poderiam ser aliados porque comiam os ratos e as cobras. Convencemos os produtores, mas era necessário proteger as galinhas. Eles viram que isso poderia dar lucro. Incluindo atrativo turístico”, afirma. “É necessário olhar a vida que há em volta. Seja na Canastra ou em São Paulo, na região de São José do Rio Pardo, em área de plantação de cana, ou na Bahia, em região de soja e turística [próximo à cidade de Luis Eduardo Magalhães]. Os produtores rurais têm grande responsabilidade porque sabem o que pode ser feito na terra”.

Para Cunha, o cidadão comum deve ser informado e, com o tempo, a sociedade passou a ser mais conscientizada. “Há algum tempo, aparecia o lobo e os donos da terra davam tiro. Isso reitera a importância da visibilidade da nota de R$ 200”, comenta. O biólogo criou, em 2012, ainda o selo Amigo do Lobo, para empresários que trabalhavam em prol da preservação do animal.

 

Ecoturismo

Cuidar do lobo gera benefícios para as plantações e estimula também o ecoturismo. Um projeto coordenado pela ONG Onçafari, há nove anos, atua pela sensibilização e conservação também dessa espécie. “A atividade faz com que empregos sejam gerados por causa da proteção ao lobo. As pessoas passam a entender que a preservação faz muito bem para todos os lados da história. O que eu gosto do ecoturismo é que as pessoas entendem que vale muito para a economia da região. A família descobre que pode ter emprego mais qualificado. Temos histórias em que a renda aumentou muito”, afirma o presidente da entidade, Mário Haberfeld, ex-piloto de automobilismo e apaixonado pela proteção da vida selvagem.

 

Projeto monitora lobos-guará em São José do Rio Pardo

O presidente da Instituição Pró-Carnívoros, o biólogo Ricardo Pires Boulhosa, concorda que é necessário estabelecer conexões com os produtores rurais para informar adequadamente sobre a importância do lobo-guará. A organização não governamental atua no campo da pesquisa para conhecer mais sobre o animal desde 1996, com trabalhos pioneiros com o lobo, para ajudar a proteger o animal. Entre os argumentos utilizados é que o bicho, considerado resiliente, resistente e não agressivo, demonstra ser aliado para a produção. Uma das características mais conhecidas é o seu potencial de semeador. “Como é onívoro, come de tudo, incluindo frutas, e anda grandes distâncias, acaba defecando e contribuindo com a natureza ao espalhar as sementes por quilômetros. Dentro da sua dieta, a lobeira [fruta semelhante a um tomate] está entre as preferidas do lobo”. Ao todo, calcula-se que 73% dos lobos estejam no Brasil, principalmente no Cerrado. Pampas e Pantanal são outros biomas onde a espécie está mais ameaçada. “Já tivemos registros também na Mata Atlântica e até Amazônia descaracterizadas”, relata.

 

Por GPS

O especialista explica que um dos projetos está em andamento no interior de São Paulo, nas proximidades da Bacia do Rio Pardo (SP), o Lobos do Pardo. “O local que estamos trabalhando hoje não é de unidade de conservação. Trata-se de uma área de mancha de Cerrado que está sofrendo alterações. Estamos vendo como o animal utiliza o canavial para caçar e se proteger. É o primeiro trabalho que é realizado em uma região assim, totalmente transformada, e podemos comparar com os lobos em unidades de conservação”, explica.

O trabalho tem parceria com a empresa geradora de energia elétrica AES Tietê, a qual é interessada em conhecer o comportamento do lobo na região de quatro reservatórios. “Precisamos gerar dados para compreender a realidade onde ele está. É importante manter essas manchas de Cerrado para proteger. Ao conhecer, podemos trabalhar com o produtor rural para uma ação mais sustentável. Podemos desenvolver técnicas que minimizem a pressão sobre o animal”, afirma Boulhosa. O biólogo acrescenta que há também uma atenção internacional sobre como os países cuidam do meio ambiente, e essa imagem é um ativo nas exportações.

O projeto mantém lobos monitorados por um colar que captura informações por 24 horas. As informações chegam via GPS para o instituto. Todas as movimentações são observadas para entender o uso do ambiente. “Aqui nós temos uma plantação de cana em que há produção durante a madrugada. Estamos olhando se isso interfere na saúde do animal. A ideia é que, com essas informações, os proprietários sejam sensibilizados para que a colheita, por exemplo, seja mais gradual. As informações são utilizadas para colaborar com as políticas públicas e também educação ambiental das comunidades. Identificamos na área pelo menos 22 lobos”.

 

Preservando a espécie na Bacia do Pardo

O projeto Lobos do Pardo faz parte do Programa de Monitoramento e Conservação da Fauna Terrestre, realizado através de parceria da AES Tietê com o Instituto Pró-Carnívoros e o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros, do ICMBio.

Iniciada em novembro de 2017, a ação tem como objetivo avaliar as ameaças à sobrevivência do lobo-guará no nordeste de São Paulo, a fim de direcionar estratégias de conservação e assim melhorar suas chances de sobrevivência a longo prazo no estado. Os estudos e ações vêm ocorrendo nas áreas de influência direta e indireta das Usinas Hidrelétricas de Caconde, Euclides da Cunha e Limoeiro.

 

A espécie

O lobo-guará é uma espécie bandeira pela expressividade nas áreas que ocupa e representatividade entre os mamíferos de grande porte do Cerrado. Ainda, desempenha importante função ecológica tanto na regulação de populações de suas presas quanto na dispersão de sementes de muitas plantas.

 

Trabalho

O levantamento de informações tem sido feito a partir de três formas principais: entrevistas com moradores locais acerca da fauna local e da espécie, o inventariamento por meio de armadilhas fotográficas (câmeras associadas a sensores de presença), e a captura, colocação de coleira de monitoramento e acompanhamento dos lobos à distância.

Até abril de 2019, as câmeras contabilizaram quase 162 mil horas de trabalho, registrando tudo que passou na frente. A partir disso, obteve-se 4.344 imagens de 32 espécies. Só de lobo-guará foram 296 registros.

Neste período, o projeto conduziu quatro expedições de captura. Na ocasião, seis lobos receberam uma coleira especial, dotada de um dispositivo de GPS que registra seus passos e atividades e transmite duas vezes ao dia toda informação a um satélite. Isso possibilitou acumular mais de 23 mil localizações dos seis exemplares acompanhados.

“Os números são grandiosos para um pouco mais de um ano de trabalho. Mas o trabalho vai além dos números. Apesar de ser considerado às vezes como uma espécie comum, tolerante à presença humana e presente em áreas degradadas, esses animais estão sujeitos a uma grande diversidade de ameaças. Conhecer estas ameaças e aproximar as comunidades locais à conservação de espécies ameaçadas é a estratégia mais viável para se obter sucesso na redução de ameaças e promover a sobrevivência de animais a longo prazo”, destaca a AES Tietê.

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